REDLine PC
Find all Tech News, Reviews, Tutorial and much more, visit us!
Banner OSG


Cidade Insólita

3 de Agosto de 2011

Cidade Insólita – O Jogo Vivo

More articles by »
Written by: Pedro
Etiquetas:, ,
street-redlinepctech

Antes de Mais desculpem a demora neste novo conta, e a todos aqueles que começaram agora a seguir os meus contos eu recomendo que leiam os anteriores: Não Laves a T-Shirt, Não há ódio na Maquina e Morrer de Vida (sigam pela ordem apresentada).

Cidade Insólita – Os Contos Tecnológicos®

Alheada às mudanças que ocorrem no mundo à sua volta, causadas por pequenas alterações, a humanidade insiste. Compra, usa, resiste, altera-se, sonha e ajusta-se. Na cidade, passamos como estranhos uns pelos outros, esquecidos já do vulgar cumprimento diário que nos afirma humanos entre nós. Os auriculares na orelha, os olhos no ecran cada vez mais pequeno da ferramenta tecnológica portátil que contem em si mais tecnologia do que toda a Europa junta no princípio do Século XX, a humanidade vai-se ajustando alegremente aos novos brinquedos e ferramentas que a ciência oferece a troco de dinheiro. Mas insidiosamente, de forma subtil, essas ferramentas vão mudando a sociedade a uma velocidade nunca antes vista. A cidade é o local mais visível dessa mudança.

O Jogo Vivo

As Suas Ordens Chegaram, Senhor!
®

Vive o teu jogo!

Com os sistema de comunicação permanentes, ou PCS, a possibilidade de estar sempre contactável tornou-se comum e imediata. A empresa “Vive o Teu Jogo!” criou o primeiro jogo On-line capaz de ser jogado fisicamente pelos jogadores. Jogos de espiões, polícias e ladrões e investigação foram criados de forma a levar as pessoas a tomar ações físicas para atingirem objetivos de jogos. As ordens chegam à caixa de correio do jogadores e estes tomam ações reais para atingirem os objetivos. Os vencedores recebem prémios de milhares de Euros. “Descobre o nome do dono do carro com a Matrícula XX-00-00”, ou “Segue e impede o jogador X de atingir o seu objetivo” são algumas das ordens dadas às pessoas que estão a jogar. Inicialmente jogado apenas por algumas pessoas, o jogo tornou-se muito popular quando o primeiro jogador atingiu o objetivo final e arrecadou sessenta mil euros. Há que viver o Jogo!

“Tira uma Fotografia ao Jogador 30045 a sair do banco.”

Estava já há duas horas à espera. O seu virtua-phone na mão e um ar despreocupado, sempre com um olho na porta do banco no Saldanha. Mas o outro não saía. Estava lá dentro, que ele sabia, mas sair, nada. Este era um desafio importante. Já tinha falhado três e não tinha pontos suficientes para lhe mandarem desafios mais empolgantes. Nem sequer ao menos queria prémios, mas queria subir o seu rank. Mantinha-se sempre baixo e ele não sabia porquê. Tinha menos de oito horas para conseguir completar este desafio. O outro estava na agência bancária, sentado numa cadeira, à espera. Mas mais cedo ou mais tarde teria de sair. Viu-o levar a mão ao bolso e tirar o virtua-phone e acenar com a cabeça. Ergueu-se e ficou a olhar para um visor dentro da agência. Sentiu que ele iria sair a qualquer momento. Uma rapariga interrompeu-lhe os pensamentos. Bonita. Baixinha. Lábios vermelhos e pequenos. Seios redondos e cheios a saírem-lhe da blusa T-Shirt Viva® que dizia “Estou dentro da onda!” em letras pequenas e vermelhas.   “Desculpe-me”, e a sua voz era suave e doce. “Sim”, respondeu. “Sabe dizer-me como ir até à Rua Brancamp?” e olhou à volta, perdida. “Claro”, disse ele, tentando dar-lhe atençao e mantendo a porta da agência sob olho, “mas porque não coloca o nome da rua no seu Virtua-phone? Era um instante.” Ela riu-se. “Está estragado. É exatamente isso que vou fazer lá. Buscá-lo.” Ele teve que sorrir perante o riso dela. E indicou-lhe o caminho. Ficou ainda a vê-la a afastar-se. As suas pernas a empurrarem o rabo redondo para a esquerda e para a direita. Quase perfeito. Olhou de novo para a agência bancária. O outro já não estava lá.

“Conta o número de pessoas que saem da estação de Comboios do Rossio com a frase “Danei-me!” na sua T-shirt Viva® entre as 18 e as 19 horas.”

Três. E olhou para o relógio do seu virtua-phone. Ainda faltavam vinte e sete minutos. Estes eram os desafios que odiava mais. Já tinha estado do outro lado, claro. Já tinha recebido a mensagem: “Sai da estação de Comboios do Rossio com a frase “Danei-me!” na tua T-Shirt Viva® entre as 18 e as 19 horas.” ou qualquer coisa do género. Isso era o que faziam os jogadores com menor pontuação. Ele estava no patamar acima. Mas ainda não tinha conseguido chegar às missões mais interessantes. As verdadeiras missões de espionagem e infiltração. Onde se ganhavam prémios e o nosso nome aparecia nas listas do Jogo! Parecia que algo acontecia sempre para o aborrecer, para o impedir de progredir, para o desviar da ação no último minuto. Se calhar, e já pensara nisto muitas vezes, não era feito para isto, para o Jogo. Mas gostava tanto de jogar e sentia-se tão bem na pele de jogador. Às vezes até faltava ao trabalho e arranjava desculpas estranhas para poder fazer uma missão. Isso não o ajudava na sua carreira. Mas o que lhe importava era o Jogo. Enquanto estava a pensar nisto viu-a. A rapariga do outro dia. Estranhou. Ela desviou os olhos dele. Dirigiu-se a ela. “Olá.” Ela olhou-o envergonhada. “Olá. Estás bom?” Ele sorriu. “Isto é uma grande coincidência. Encontrar-te aqui.” Olhou para o virtua-phone que ela tinha nas mãos. “E já tens de volta o teu virtua-phone arranjado.” Ela olhou-o de forma avaliadora e depois sorriu-lhe. “Vou contar-te. Estava a seguir-te.” Ele abriu muito os olhos. “A sério?” E desconfiou. “Porquê?” Ela fungou e olhou para o lado. “Fiquei interessada em ti no outro dia. Achei-te muito querido e ficaste-me na cabeça. E hoje quando te vi a sair do metro, resolvi seguir-te.” Ele ficou espantado. “A sério? Gostavas de ir beber um café?” Ela sorriu-lhe. “Não bebo café. Mas sim. Gostava de ir contigo beber qualquer coisa.” Ele pensou na missão. Mas ainda faltava muito para acabar e que se danasse. Ofereceu-lhe o braço e ela aceitou-o com um riso feliz.

“Liga-te ao Jogo! Temos um vencedor!”

Leu a mensagem no seu virtua-phone de forma ensonada. “E então? Não fui eu que ganhei!” Disse alto. Tinha dormido com ela e estava estranhamente feliz e em paz. Ela tinha-se ido embora de manhãzinha, depois de lhe deixar o número do virtua-phone escrevinhado num papel. Ele tinha-lhe pedido que ficasse. Ela dissera que gostaria muito mas tinha que fazer. “Realizaste um dos meus sonhos de sempre.” Tinha-lhe ela sussurrado. Ele rira-se para ela. “Qual?” E ela dissera mesmo antes de fechar a porta. “Depois vês.” E ele tinha voltado a adormecer. Ergueu-se da cama e começou a preparar o pequeno almoço a assobiar uma cançãozinha. Hoje era Sábado e não tinha que ir trabalhar. Enquanto a água para o café aquecia e as torradas começavam a ficar douradas ligou ociosamente o computador portátil. Depois ligou para o número dela mas uma voz feminina fê-lo saber que o número estava indisponível. Está a trabalhar ou assim, pensou. Estranho que não saber nada sobre ela. Se trabalha, se estuda. Mais tarde saberei, pensou. Ela está interessada em mim e há-de voltar. Sorriu com este pensamento. Foi buscar as torradas e o café e leu os seus emails. Depois recordou-se da mensagem e entrou no espaço do Jogo. Na página inicial, numa grande e bela fotografia estava ela. A vencedora. Com o seu Nick de jogadora. “Hunterlady23”. A rapariga que tinha dormido essa noite consigo. Tinha vencido o desafio de contra-espionagem e tinha ganho dez mil euros. Então ele percebeu tudo. Porque nunca conseguia vencer os seus desafios. Porque tinha estado ela com ele. E o que tinha ela feito para vencer. Cerrou os punhos e mordeu os dentes até os músculos da queixada doerem. Depois fixou a parede da sala absorto. Depois começou a chorar.

“Desceste de Nível mas não esmoreças! A tua missão é saíres do Teatro D. Maria II com um chapéu preto na cabeça entre as 20 e as 21 horas!”

Riu-se. Riu-se alto e de uma forma tão contínua que se assustou a si mesmo. Os seus dedos digitavam procuras constantes no computador. Estava nisto há horas. Tinha fome mas não tinha vontade de parar. Pesquisas, pesquisas, pesquisas! Eventualmente, quando a tarde já estava a escurecer encontrou uma forma de saber onde ela vivia. Tinha visto todas as fotografias de todas as turmas de todas as faculdades do país. E numa delas tinha-a encontrado. Direito. Ela estudava direito e vivia em Lisboa, num quarto alugado. Encontrou a morada facilmente e preparou-se para sair. Vestiu o seu casaco, pôs o virtua-phone no bolso e começou a vasculhar a casa até encontrar a coisa. Um atiçador velho de lareira que tinha guardado na dispensa. Dava para esconder debaixo do casaco, era de metal e era pesado. A ponta era ponteaguda mas ele estava a apostar mais em bater com força do que em espetar coisas. Nem sequer ao menos gostava de sangue. Ia jogar sim. Mas este era um jogo novo…



Artigos Recomendados!


About the Author

Pedro