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Cidade Insólita

22 de Junho de 2011

Cidade Insólita – Não laves a T-shirt

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Written by: Pedro
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Informamos todos os nossos leitores que a partir desta semana vamos contar com um conto semanal de nome “Cidade Insólita” da autoria de Joaquim Pedro Ferreira, cada conto girará à volta de um acontecimento tecnológico que ainda não existe, mas que é perfeitamente possível num futuro próximo.

O conto decorre das alterações sociais/políticas/económicas trazidas pelo gadget ou mudança tecnológia.

Cidade Insólita – Os Contos Tecnológicos

Alheada às mudanças que ocorrem no mundo à sua volta, causadas por pequenas alterações, a humanidade insiste. Compra, usa, resiste, altera-se, sonha e ajusta-se. Na cidade, passamos como estranhos uns pelos outros, esquecidos já do vulgar cumprimento diário que nos afirma humanos entre nós. Os auriculares na orelha, os olhos no ecran cada vez mais pequeno da ferramenta tecnológica portátil que contem em si mais tecnologia do que toda a Europa junta no princípio do Século XX, a humanidade vai-se ajustando alegremente aos novos brinquedos e ferramentas que a ciência oferece a troco de dinheiro. Mas insidiosamente, de forma subtil, essas ferramentas vão mudando a sociedade a uma velocidade nunca antes vista. A cidade é o local mais visível dessa mudança.

Não laves a T-shirt

A T-shirt viva (R)Não saias à rua sem a tua MENSAGEM!

A primeira peça de roupa a receber bio-componentes cibernéticos foi a T-shirt Viva(R) com o logo “Diz o que te vai no peito!” que saiu para o mercado no início da Primavera de 2013. A roupa com bio-componentes permite ao utilizador criar desenhos na t-shirt, letras, mensagens, mudar a cor, movimentos e mesmo – com o upgrade “És Um Televisor Vivo, pÁ!” –  passar vídeos e slides. Esta T-shirt usa a energia cinética do corpo para alimentar o bio-processador e as células de projeção que estão espalhadas por todas as fibras do vestuário. Através de um teclado virtual, os clientes podem alterar as mensagens da T-shirt no preciso momento que queiram. Pode-se ganhar dinheiro criando publicidade que se torna epidémica, porque os outros utilizadores da T-shirt copiam as coisas interessantes, pagando automaticamente um pequeno valor ao criador da imagem/mensagem.

 

Wikiplus – A sua Wiki viva.

Lisboa – Metro da Linha Azul – Direção Amadora

As portas fecham-se e o metro, depois do apito irritante que o caracteriza, arranca da paragem do Rossio. Ele entra e não se senta, para ficar à vista de toda a gente. A sua T-shirt afirma em letras roxas e ameaçadoras: “Não Sejas Parvo. Fuma Fogo!” Martim é “O” génio das T-shirts vivas. O que ele cria, os outros copiam. Ele sabe disso e tornou as suas mensagens escritas o seu ganha-pão. De cada vez que alguém acede ao seu banco de dados públicos para copiar para o seu vestuário uma das suas criações, Martim fatura. No princípio lia, com admiração e descrença, todas as suas mensagens de “Tens Dinheiro, pÁ!” que lhe caíam na Inbox da conta tshirtviva.com. Agora já não. No final do dia olha apenas para o seu extrato e repara se foi um dia bom. Andar às voltas em zonas cheias de gente é que é um estrago. Martim tem que cirandar por Lisboa pelo menos três horas por dia. Para vender, tem que ser visto e Martim vende.

Ainda antes de chegar ao Marquês já alguém lhe comprou a mensagem. Martim toca na sua t-shirt para chamar o teclado virtual e com vários toques rápidos muda a sua mensagem e coloca uma imagem de uma chama que se move de forma deslumbrante: “Não sejas Fumo. Arde como um parvo!” Na carruagem alguém se ri depois de ler a nova frase e Martim ganha mais uns cobres e sente-se subitamente alegre e intocável. Depois o metro pára no Marquês e tudo muda. Ela entra e Martim não consegue tirar os olhos de cima da rapariga morena.

Tem cabelos negros e brilhantes que lhe chegam, meio encaracolados, ao meio de uma cintura de vespa em que Martim repara com atenção. Estreita e bem delineada. Seios redondos e altos sob um vestido preto, curto e justo ao corpo onde deve ser justo ao corpo. No peito um ponto de interrogação a tremer para a direita e para a esquerda. Mais roupa viva, pensa Martim.

Os olhos são amêndoa e os lábios cheios e rijos a prometer beijos e dentadas. Senta-se num banco à frente dele e as pernas nuas chamam a sua atenção como um anúncio de néon colorido no meio de uma praça vazia. Olha para a frase no peito de Martim e sorri-lhe. E é isso que lhe dá coragem. Martin chama o teclado. Escreve a uma velocidade incrível e ao clicar entrada a sua t-shirt escurece e a branco ilumina-se a frase: “Posso conhecer-te?” Ela olha para ele com um sorriso sardónico. Chama um mini teclado tocando ao de leve no seu vestido e este abre-se sobre a perna redonda e deslumbrante. O ponto de interrogação desaparece e a substituí-lo forma-se lentamente um “Náh-uhm…” A palavra fere-o. Escrita no gozo, com desprezo, para o diminuir. Então ele cerra os dentes e resolve não desistir e mostrar ao “naco” aquilo que é capaz de fazer. Quem é. O que ela perde.

As pessoas no metro começam a prestar atenção à troca entre os dois. Algumas sorriem divertidas, outras comentam atentas. Martim chama de novo o teclado e começa, como um furioso, a pedir permissões às contas da roupa das pessoas à sua volta e à medida que as pessoas vão respondendo, Martim vai construindo a sua obra de arte digital. “Como te chamas?” surge no peito de várias pessoas ao mesmo tempo, com o som de água a escorrer vindo da roupa. Os passageiros do Metro começam a olhar para o efeito e algumas que segundos antes lhe tinham negado permissão, resolvem dar-lhe acesso. Martim não pára, com medo que ela saia numa das paragens a seguir.

Cria uma avalanche de luz e cor e letras e frases e palavras, misturando poesia que vai buscar à net com palavras suas sobre desejo e futuro, relacionando o corpo dela com figuras mitológicas e brincando com a passagem das mensagens pela roupa de toda a gente que está na carruagem. Há quem se levante para sair e depois de hesitar acabe por ficar, curioso com o fim que tudo aquilo levará. No meio da corrente de entradas que Martim vai digitando no seu teclado virtual, aceita ainda pedidos de amizade e de seguidores da sua página “roupa-na-boca” das pessoas que estão à volta dele e com quem nunca falou, não fala agora e provavelmente nunca falará. Mas não pensa nisso. Insere imagens, recorta palavras, introduz significados e clica entrada. Entrada. Entrada.

Ela olha com prazer à sua volta, as cores a mudar, as palavras dele a gabarem os seus olhos, os seus lábios, as suas pernas. Os poemas de Eugénio de Andrade a ganharem uma dimensão nova neste mundo de bytes e impulsos elétricos. Os teus lábios são Verão, são sabor vermelho de cereja da terra, são concha molhada de mar, dizem os peitos das gentes na carruagem de Metro. Ela ri-se, as restantes pessoas na carruagem sorriem e fica tudo em suspenso quando ele faz aparecer em todas as T-shirts, camisas e vestidos à sua volta, escrito a ouro e azul, “Então? Posso conhecer-te?” E ela sorri para ele com olhos bondosos e de admiração. Chama o seu teclado uma vez mais. Digita com dedos leves e seguros. “Náh-uhm…” Ouve-se um desapontamento geral na carruagem. Mas ela continua. “Tenho namorado. Gosto dele.” E o Metro pára na Pontinha e a campainha das portas parece um som triste e toda a gente fica calada e ela sai.

Martim fica olhá-la até ela desaparecer na escadaria que dá para a superfície com um andar elegante que lhe dói na garganta. Uma a uma, numa sucessão rápida, as permissões vão desaparecendo no seu ecran virtual. Martim senta-se sem olhar para ninguém. O Metro arranca e na paragem seguinte algumas das pessoas que saem dão-lhe um toque bondoso no ombro. Martim acena com a cabeça, mas não a levanta nem diz nada. Sente-se vazio. Porque raio é que ela não o quis conhecer. Nem que fosse só para isso. Ficar sua conhecida e quem sabe no futuro, sua amiga. Mas ele reconhece que não era só para isso. Que não era para amiga que a queria.

O Metro pára na estação terminal e uma voz feminina avisa que todos os passageiros devem sair. Mas ele não sai. O Metro entra no túnel e pára e Martim fica no escuro a matutar. Passado alguns minutos volta à paragem de início. Várias pessoas entram e olham para ele. Uma delas, uma rapariga sorri-lhe e senta-se à sua frente. Bonita sem ser deslumbrante. Com seios que parecem ser redondos e bem feitos debaixo da T-shirt. E para os quais Martim olharia avaliadoramente se não estivesse tão desolado. Uma mensagem aparece na T-shirt dela e pisca várias vezes. Ele olha. “Posso conhecer-te?” E ela fica a olhar para ele expectante. Martim chama o teclado e escreve rapidamente. “Náh-uhm…” Depois levanta-se e sai.

Este é um Guest-Post da autoria de Joaquim Pedro Ferreira.

Poderão visitar as suas páginas nos endereços:

http://osonhodomonstro.wordpress.com/
http://lisbonrevisited.wordpress.com/

 



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About the Author

Pedro







  • Pedro Alexandre

    Esta página melhora a cada dia que passa, excelente conto, vão existir mais?

    Parabéns ao Joaquim pela excelente história criada em volta da t-shirt electrónica, quem sabe não estejam já a pensar nestes brinquedos.

    Cumps.

  • Andyamfp

    Genial, nunca tinha visto nada do género, muito bom, boa maneira de abordar as novas tecnologias.

    Parabéns ao autor e á redline pela inovação.

    Gostei!!

  • http://www.goodchristianlouboutin.info/christian-louboutin-pumps/ christian louboutin pumps

    I am very interested about it, will you share more detail? Like source of this story?

  • http://www.redlinepctech.com GhostMaster

    Hi Christian, this story is original, its not a copy and its not based on real facts, just fiction.
    I’m sorry that this its not available in english.

    Thanks for the comment.

  • ALAYNA

    Is this be available in english?

    Looks interesting.

    Regards.

    • http://thelazybirdwatcher.wordpress.com/ Joaquim Pedro Ferreira

      Hi Alayna:

      Thanks.
      No it isn’t. But very soon it will be.
      As soon as I translate it and someone (English native) proof reads it.