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Cidade Insólita

29 de Junho de 2011

Cidade Insólita – Não há Ódio na Máquina

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Written by: Pedro
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Cidade Insólita – Os Contos Tecnológicos

Alheada às mudanças que ocorrem no mundo à sua volta, causadas por pequenas alterações, a humanidade insiste. Compra, usa, resiste, altera-se, sonha e ajusta-se. Na cidade, passamos como estranhos uns pelos outros, esquecidos já do vulgar cumprimento diário que nos afirma humanos entre nós. Os auriculares na orelha, os olhos no ecran cada vez mais pequeno da ferramenta tecnológica portátil que contem em si mais tecnologia do que toda a Europa junta no princípio do Século XX, a humanidade vai-se ajustando alegremente aos novos brinquedos e ferramentas que a ciência oferece a troco de dinheiro. Mas insidiosamente, de forma subtil, essas ferramentas vão mudando a sociedade a uma velocidade nunca antes vista. A cidade é o local mais visível dessa mudança.

Não há Ódio na Máquina

Drive by Voice ®
A Mercedes Trademark System.
Não há dúvida que a receção inicial do novo fenómeno tecnológico criado pela Mercedes se dividiu entre aceitação absoluta e desconfiança. Saídos no início de 2014, os novos Mercedes com o sistema Drive by Voice® incorporado permitem a condução através de ordens sonoras bastante complexas e permitem que as decisões da escolha do itinerário sejam feitas pelo veículo. Através deste processo revolucionário, a Mercedes provou que os acidentes automóveis com a participação dos seus veículos decresceu em flecha e que o tráfego se tornou mais racional nos locais onde pelo menos 25% dos veículos são Drive by voice®. Os veículos possuem um sistema de reconhecimento de voz que lhes permite aperceber-se de comando dados sob stress e decidir se devem ou não quebrar os limites impostos pelas regras de tráfego e os limites de velocidade quando uma crise se coloca à sua frente.

8:34 Março, 26. 2015
Fechou a porta de casa e olhou, como fazia todos os dias, para o quintal do vizinho. Era assim que começava quase todas as manhãs, com raiva. O vizinho tinha voltado a cortar os ramos da nespereira que passavam um bocadinho por cima da vedação que separava os quintais. Olhou para a sua nespereira e observou o quanto se inclinava para o lado de cá, após anos de ramos aparado sem piedade pelo vizinho. Cerrou com força os maxilares até doerem e desceu o caminho do quintal até ao portão. Olhou para a calçada e lá estava. Mais uma vez. O grande caixote de lixo malcheiroso empurrado para o lado do seu quintal. Abanou a cabeça e dirigiu-se ao caixote do lixo. Apanhou uma revista do chão e apoiando a revista no rebordo sujo voltou a empurrar o caixote para o seu local original no passeio.

Era assim todos os dias. Todos os santos dias tinha que fazer aquele serviço. Nem que fosse só para mostrar ao vizinho que não desistia. Porque ele sabia. Sempre que desistia de uma das implicâncias do vizinho, ele inventava imediatamente outra para o torturar. Olhou pelo canto do olho e lá estava ele, atrás da cortina da janela da cozinha a espiar. Sempre a espiar. Largou o caixote do lixo e dirigiu-se para o seu carro. “Abre-te”, disse alto e o veículo destrancou-se e a porta do condutor abriu-se, logo após os sensores se ativarem e não detetarem nenhum corpo a impedir a abertura da porta. Entrou e sentou-se comodamente. “Liga-te e vai para…” e fez a pausa necessária que o sistema Drive by Voice® necessitava. “emprego.” Disse. “Estou atrasado. Vai…” e voltou a fazer a pausa. “depressa.”

O veículo ligou-se com um som suave e grave. Uma voz feminina soou dentro do habitáculo. “Emprego. A viagem vai durar 38 minutos.” Ele praguejou. “Estou… atrasado.” E enquanto arrancava o veículo colocou uma voz professoral, desta vez masculina. “Posso diminuir para 36 minutos conduzindo-me muito perto da velocidade máxima permitida pela lei, mas faço reparar no entanto que não é legal que me peça para ir mais rápido. Aconselho-o a sair de casa mais cedo para poder desfrutar da viagem e chegar a horas a…” Ele interrompeu a voz. “Cala-te.” E a voz calou-se. Vou chegar atrasado, pensou. Suspirou e aceitou o facto. Pegou no seu leitor portátil e desdobrou-o. Chamou os conteúdos e começou a ler as notícias da manhã.

19:15 Março, 27. 2015
Chegou à sua rua e saiu. Indicou através do parâmetros Drive by Voice® ao carro o local para se estacionar e o veículo deslizou para o local enquanto ele se dirigia a casa. Sobre a relva do seu quintal estavam os pedaços de grama já a secar da relva do vizinho. Era outra das suas táticas para o chatear. Ele nunca tinha compreendido porque razão o outro fazia isto. Porque é que tirava prazer em chateá-lo diariamente. Tinha até feito uma investigação na Internet para ver se havia alguma relação entre os dois que desconhecesse, mas nada. O vizinho tinha vivido sempre naquela casa e não eram familiares nem qualquer outra relação existia entre os dois. Pelo menos uma que ele tivesse percebido. Tirou o casaco e pendurou-o ao lado da porta de entrada. Pegou num ancinho e começou a mandar metodicamente a grama para o quintal do outro. Era assim. Uma guerra surda, de vontades, raivosa. E ainda para mais não percebia a razão disto. Já tinha, é claro, ido falar com o outro. Mas nada. Negara tudo. Negara mesmo, com a expressão de quem estava a falar com um louco, qualquer problema ou incidente. Depois fechara-lhe a porta na cara, deixando-o perplexo. Os outros vizinhos diziam nada saber sobre o assunto. E a coisa continuara diariamente, sem repouso. Pousou o ancinho no chão e olhou para a casa do vizinho. Atrás do cortinado lá estava ele, a olhá-lo. Fez-lhe um cumprimento com a mão e guardou o ancinho. Entrou em casa e fechou a porta após olhar para o seu carro. Tinha-se estacionado com perfeição do outro lado da rua.

08:27 Março, 26. 2015
Saiu de casa com a caneca de café e inspecionou o quintal. Pareceu-lhe tudo normal. O estupor deve ter dormido esta noite, pensou. Bebeu os últimos golos de café e olhou para o relógio colado ao pulso. Era tempo de sair. Voltou a entrar e saiu com auto-tábua de passar a ferro que se tinha estragado e que já estava fora da garantia. Fechou a porta de casa e colocou-a ao lado do caixote do lixo, no sítio onde se colocam os monstros que os serviços municipalizados vêm buscar. Teve o cuidado de a colocar no local exato.

Da última vez tinha recebido uma multa em casa porque o banco de jardim estragado que ali tinha posto para ser levado estava caído na rua quando os serviços o tinham vindo recolher. Olhou de novo para a casa do vizinho e este estava no quintal, a aparar uma roseira e virado de costas para si. Entrou no seu veículo, colocou os óculos escuros e quando ia dizer “emprego”, reparou no seu vizinho. Este abriu a porta do quintal, dirigiu-se ao caixote do lixo e empurrou-o deliberadamente para longe da sua casa. A auto-tábua de passar a ferro caiu no meio da rua e o vizinho olhou-o com um sorrizinho sabedor. Uma fúria subiu por si acima. Arrancou os óculos da cara que parecia que ia explodir com excesso de sangue e calor. As mãos começaram a tremer-lhe de raiva.
Gritou.
Só uma vez.
“Atropela-o já!!”
O veículo mediu, com os seus sensores de odor e recetores de voz o grau de stress do seu dono. A escala rebentou. O veículo detetou um perigo real e concreto. Acima de nível 3 que é o que dava permissão ao veículo para quebrar as regras de velocidade para levar uma grávida em trabalho de parto ou um ferido até ao hospital. Acima do nível 4 que é o que dava permissão ao veículo para chocar contra um obstáculo para salvar um transeunte ou ocupante de se magoar ou morrer. Esta medição estava bem dentro do Nível 5. O mais alto. Obedecer à ordem sem reservas. O veículo computou. Os seus pneus chiaram no asfalto e o veículo acelerou subitamente em frente.

Este é um conto da autoria de Joaquim Pedro Ferreira.

Poderão visitar as páginas do autor nos seguintes endereços:

http://osonhodomonstro.wordpress.com/
http://lisbonrevisited.wordpress.com/
http://bayushiseni.6sided.net/
http://thelazybirdwatcher.wordpress.com/



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