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Cidade Insólita

6 de Julho de 2011

Cidade Insólita – Morrer de Vida

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Written by: Pedro
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Patins-autopropulsionados

Hoje é Quarta-feira e como tal é dia de Cidade Insólita, mais um conto da autoria de Joaquim Pedro Ferreira.

Cidade Insólita – Os Contos Tecnológicos®

Alheada às mudanças que ocorrem no mundo à sua volta, causadas por pequenas alterações, a humanidade insiste. Compra, usa, resiste, altera-se, sonha e ajusta-se. Na cidade, passamos como estranhos uns pelos outros, esquecidos já do vulgar cumprimento diário que nos afirma humanos entre nós. Os auriculares na orelha, os olhos no ecran cada vez mais pequeno da ferramenta tecnológica portátil que contem em si mais tecnologia do que toda a Europa junta no princípio do Século XX, a humanidade vai-se ajustando alegremente aos novos brinquedos e ferramentas que a ciência oferece a troco de dinheiro. Mas insidiosamente, de forma subtil, essas ferramentas vão mudando a sociedade a uma velocidade nunca antes vista. A cidade é o local mais visível dessa mudança.

Morrer de Vida

A Pilha Humana
®

Acelere com a sua própria energia!

O aparecimento dos patins autopropulsiados deixou o mundo inteiro interessado e perplexo ao mesmo tempo. O primeiro gadget da linha A Pilha Humana® da empresa brasileira Energia dos Escravos, saído para consumo no início de 2015, parecia não ter futuro. A necessidade de se fazer uma pequena intervenção cirúrgica para os poder utilizar parecia ser um grande impedimento à sua comercialização. Mas a publicidade criada à volta dos patins – “Emagreça a comer mais, sua tonta!” – surtiu um efeito extraordinário. Os patins utilizam a energia humana, fornecida pelos músculos gémeos, situados na barriga da perna. Um bio-receptor energético implantado entre estes músculos recebe a energia criada pelos músculos e transmite-os para os patins, que conseguem deslizar a uma velocidade máxima de sessenta quilómetros por hora. Essa energia é fornecida pelo corpo humano. A utilização dos patins permite a uma pessoa gastar numa hora o equivalente energético de um dia inteiro de trabalho. Com os patins autopropulsionados, os quilómetros que se fizerem decidem a comida que se pode engolir.

04:37:25 e a contar.

Deslizava como uma deusa alada sobre a placa circular erguida a sete metros de altura na Praça do Comércio. Por cima dela, um visor 3D mostrava o tempo que já tinha decorrido desde que ela começara, a velocidade média que fazia e o nome dela em grandes caracteres tridimensionais. Rodava com leveza e graça e as pessoas por baixo dela, a caminho de casa, da estação de metro, dos barcos ou do estacionamento de carros subterrâneo olhavam-na com um sorriso na cara. Algumas aplaudiam, outras faziam-lhe sinais de encorajamento e outras ainda chamavam-na pelo seu nome. Isso ajudava. Sim, como isso ajudava. Ainda não tinha começado a ficar aborrecida, mas sentia já os sinais que isso poderia acontecer lá mais para a frente. Mas tinha que continuar. Atravessar a noite seria o mais aborrecido, mas ao menos estaria mais fresco. Olhou à volta à espera de ver Marco aparecer, mas por agora nada. Ainda era cedo e se ele já tinha saído do emprego, tinha sido recentemente e ainda não tivera tempo para chegar. Esperar. Esperar. Esperar. Tinha que ser paciente e isso ela era. Reparou num gajo que olhava para ela fixamente e após alguns momentos ficou um bocado perturbada e vulnerável. A equipa da Pilha Humana® tinha-a convencido a usar uma mini-saia e uma camisa justa e incomodava-a que olhassem para as suas pernas roliças. Depois disto, sim. Depois disto estaria muito mais magra e já podiam olhar para ela, mas por agora olhares mais fixos nela faziam-na sentir-se mal. Olhou para o gajo e mostrou-lhe a língua. Isso pô-lo logo a andar. Riu-se perante a sua audácia. Ao fim de algum tempo conseguiu ver o Marco, que se aproximava vindo da Rua Augusta. Acenou-lhe e ele acenou-lhe de volta.

Dois dias antes.
Rodava no meio da Praça do Comércio. A equipa preparava a placa circular onde ela rodopiaria dentro de dois dias. De todas as centenas de inscrições que tinha havido, depois dos testes de equilíbrio, velocidade e um complexo exame médico, tinham-na escolhido a ela, a ela! Iria bater o recorde mundial de rodar sobre uma placa giratória a vinte e cinco quilómetros por hora durante mais tempo. O recorde ainda pertencia a uma americana, desde 1960! Tinha rodado dois dias inteirinhos. E ela ia bater o recorde e ia ser o nome dela que figuraria no novo Livro de Recordes do Guiness. Parou a olhar para os trabalhos da equipa e um gajo saiu de um autocarro que travou a chiar na paragem. “És mesmo boa, rapariga dos patins!” Ela olhou-o com desprezo. Ele olhou-lhe as pernas e o rabo. Deve estar estúpido, pensou. Gorda como estou… E olhou-se na janelas espelhadas do autocarro. As ancas enormes, as pernas gorduchas, os braços a parecerem salsichas e as bochechas como bolachas. Abanou a cabeça e com um impulso das pernas deslizou para trás, para o meio da praça. Que parvos que são os homens. Qualquer coisa lhes serve. Até o Marco parecia parvo. E recordou-se do dia anterior, deitados na cama dele e ele a gabar-lhe as pernas rijas e bem moldadas. Teve vontade de ser rir. As suas pernas flácidas e gordas… Mas depois desta prova, além de sair com dez mil euros, o nome escrito num dos livros mais famosos do mundo, iria passar por uma metamorfose. Ia queimar tanta gordura que de lagarta ia passar a borboleta. Acordou do sonho de olhos abertos pela voz forte de João, um dos executivos portugueses da Pilha Humana®. Deslizou na sua direção a sorrir.

19:17:45 e a contar.
“Não comeste o que te trouxe ontem à noite”, disse Marco, a voz zangada e preocupada. Ela riu-se para ele. “Comi um bocadinho, mas estas voltas deixam-me enjoada. Não te preocupes que como daqui a nada.” Deslizava sem esforço na placa circular, olhando para ele, parado no alto das escadas a olhá-la de forma avaliadora e preocupada. A manhã tinha chegado cedo e as pessoas a atravessarem a praça rapidamente, a dirigirem-se para o trabalho, tinham-na animado um pouco mais. As últimas horas da noite tinham-na desmoralizado, mas agora, que o dia tinha regressado e Marco estava ali, tinha recuperado a energia e sabia que atravessaria o dia sem problemas. “Tu gastas muita energia aí em cima”, disse Marco com uma voz zangada, “sem dormires e se não comeres bem, podes ter problemas.” Ela riu-se e passou ao pé dele e deixou a sua mão deslizar pelos cabelos revoltos do seu namorado. “Com a gordura que tenho acumulada? Nem penses nisso.” Ele penteou-se. “Qual gordura acumulada, Sílvia?! Já não tens assim tanta gordura acumulada.” Ela abanou a cabeça. “Não te preocupes. Se tiver fome, como.” Marco abanou a cabeça. “Vou trabalhar. Volto no final do dia.” Ela mandou-lhe um beijo, soprado teatralmente. “Eu não saio daqui.” Ele riu-se e começou a descer as escada. O dia ia ser quente, pensou ela e bebeu mais um bocado de água pelo tubo que ia dar à sua pequena mochila.

Dois meses antes.
“Fizeste o quê”, perguntou a mãe, aflita e a olhar-lhe para as pernas. “Fiz a operação para poder usar os novos patins autopropulsiados. “E isso não é perigoso?” Ela riu-se. “Não mãe. Não é perigoso, é uma forma de emagrecer e ainda por cima são ecológicos.” A mãe abanou a cabeça da sua forma habitual. “O que é que o Marco pensa disso?” e ela abanou os ombros. “Ainda não lhe disse”, e a mãe suspirou. “Qualquer dia esse rapaz perde a paciência contigo, filha. E olha que não arranjas outro como ele.” Ela abriu as narinas, a mostarda a chegar-lhe ao nariz. “Não arranjo outro que goste de gordas, é?” A mãe voltou a suspirar. “Não, minha parva, não arranjas outro tão bondoso e compreensivo como ele.” Ela abanou os ombros. “Quando estiver magra, se calhar até arranjo melhor.” “Sílvia!” Ela riu-se. “Estou a brincar, mãe.” E a mãe olhou-lhe para as duas aberturas metálicas a meio das canelas. “É aí que enfias os cabos dos patins?” Ela olhou também para as entradas dos jacks orgulhosamente. “Sim. Só tenho que esperar que cicatrize.” E quanto custou”, perguntou a mãe. “Caro”, respondeu-lhe ela um pouco menos à vontade. “E como é que arranjaste o dinheiro?” A voz da mãe soou desconfiada. Ela voltou a rir-se. “Vendi o carro que vocês me ofereceram.”

37:23:12 e a contar.
A noite já ia longa. Um dia inteiro e parte de outro já tinham passado. Sentia a cabeça leve e ao mesmo tempo a urgência em manter a velocidade. A cidade tinha ficado envolvida numa neblina de humidade e calor, própria das noites quentes e ela só conseguia vislumbrar algumas luzes amareladas dos candeeiros de Lisboa, dos barcos no Tejo e de uma ou outra janela com a luz acesa. Em breve poderia parar. Mais algumas horas e seria a nova recordista de tempo sobre patins numa plataforma circular. Seria conhecida, seria apreciada e seria magra. Estava com um bocadinho de fome, mas não lhe apetecia comer. Quando parasse comeria tudo o que tivesse para comer. Agora já podia fazê-lo sem se sentir culpada ou pesada. Tinha vontade de beijar ardentemente a pessoa que tinha inventado aqueles patins abençoados. E ao pensar em beijar ardentemente, Marco regressou-lhe à cabeça. Tinha-se zangado com ela, o parvo. Tinha-lhe dito que ela tinha que parar, que se estava a matar, o burro. Não gostava ele dela? Não a amava? Queria que ela continuasse uma baleia gorda? “Se não parares agora esta loucura nunca mais me vês”, tinha ele ameaçado. Ela tinha encolhido os ombros. “Isto é maior que nós. Se queres ir-te embora, vai.” Ele ficara chocado. O olhos tinham ficado rasos de lágrimas enquanto a olhava intensamente. Depois tinha-se virado e ido embora. Ela tinha continuado a rolar, agora mais depressa, apesar do cansaço. Só para não pensar.

41:56:34.
Tinha sido o primeiro da equipa a chegar. Tinha ido comprar flores às floristas da Praça da Ribeira. Faltava pouco tempo para o recorde ser quebrado e tinha de haver flores e champanhe e fotografias. Este evento faria explodir a venda dos patins. O nevoeiro estava a levantar-se à medida que o sol da manhã aquecia a atmosfera. Não conseguia ver a placa circular, mas achara estranho não ouvir o som dos patins a rolar sobre o contraplacado pintado de preto. Subira as escadas depressa com um mau pressentimento. Lá em cima, a rapariga estava caída. Parecia estar a dormir um sono muito profundo. Chegou-se a ela e colocou a mão sobre as narinas dela. Não lhe sentiu respiração. Quase em pânico resolveu levá-la para o hospital. Pegou nela ao colo e começou a descer as escadas. Parecia uma pluma. Não pesava nada, esta rapariga…

 



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About the Author

Pedro







  • Pedro Alexandre

    Adoro estes contos, mais uma excelente história que nos remete a viver o futuro.

    Parabéns Joaquim.

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